Espectros - Por entre os goles

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Garrafa na mão e não podia ser a primeira. Olhos vermelhos de um sangue que se dilui por entre os goles. Saltita e ri, esbraceja e murmura uma piada privada de si, para si mesmo. 
Ninguém nasce assim e se por um lado sentes dó da humanidade que se transforma em fantasma, por outro atribuis a desgraça a uma qualquer escolha no meio do caminho. A verdade é que não sabes.

O riso dele é alto, bate nas paredes e ressoa, agride. Porque o riso dele não é saudável, não é alegre, é o riso demente de quem já perdeu tudo, até a si mesmo. É o riso de quem não tem nada mais que as memórias, verdadeiras ou forjadas, de um tempo esquecido, de pessoas idas, melhores dias.
Outro gole e mais um salto, um gesto que podia ser ameaça mas é desespero, ele ri porque bebeu o suficiente para se esquecer de todas as razões pelas quais já chorou, no escuro frio das noites mal paridas.

Photo by Zac Ong on Unsplash

Eu sigo caminho, o odor da cerveja revolve-me os sentidos. Quando olho para trás, ele continua no mesmo lugar. Há quanto tempo lá estará? Continua a conversa animada com os seus próprios espectros. A garrafa está quase vazia, quando acabar, o quê que o impede de se ir com eles?




* "Espectros" é uma série de pequenos posts de escrita criativa, resultantes da minha observação de desconhecidos na rua e nos transportes, que por uma razão ou outra, se me apresentam como borrões de si mesmos. Escrever sobre eles é a minha forma de os tornar reais.

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