A Carreira do Mal, Robert Galbraith

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Não deixem que as mais de 500 páginas do terceiro caso de Cormoran Strike vos assustem: lêem-se com fulgor, com vontade, com fome. Nota-se o entusiasmo?


O terceiro caso a ocupar a nossa dupla, o ex-militar carrancudo Cormoran Strike e a sua expedita e sempre afável secretária/assistente/aspirante a colega Robin, está demasiado perto de casa. Mais concretamente, é um caso que se insidia nos dias dos nossos protagonistas, tornando-os alvos e ao mesmo tempo, suspeitos. Algures no passado do detective, alguém lhe tem ódio suficiente para matar, desmembrar e enviar membros corporais através de Robin. Aliado a isso, há referências à sua falecida mãe, com alusões à sua banda preferida. No meio de uma relação nova e com o aproximar do casamento de Robin, o negócio sofre consequências negativas com a publicidade inerente ao caso. Há em Strike um receio duplo, pelo rumo do seu ganha-pão e pelo perigo a que expôs Robin.

O detective concentra-se em três suspeitos do seu passado que têm a maior probabilidade de estar por trás deste plano macabro e destes actos tresloucados e nós passamos parte do livro à procura deles, a tentar perceber onde estão, o que fazem hoje em dia, se o ódio que um dia lhe direccionaram continua firme e forte. De pista vaga em pista vaga, chegamos a eles mas as dúvidas persistem: apesar do instinto lhe dizer que o culpado está ali, num daqueles três nomes, faltam provas, faltam certezas, há que procurar em todo o lado, confirmar cada informação. Quando pensamos que estamos quase a chegar lá, voltamos à estaca zero. E ficamos frustrados. 

O livro também toca no ímpeto que algumas pessoas têm de querer ser amputadas, mesmo sem haver uma necessidade física para tal. Tendo em consideração que o protagonista perdeu parte da perna numa explosão, é uma vertente psicológica que é explorada sem exagero ou maldizer, é um reconhecimento de algo real. Há também um foco na pior faceta da condição humana através dos nossos três suspeitos, cada um deles um monstro à sua maneira e tamanho. Essa monstruosidade traz sentimentos e memórias à superfície.
Pode não parecer mas neste livro há muito de Robin: das sombras do seu passado, dos seus sonhos, dos seus dotes para a investigação, da sua empatia, da sua teimosia e da sua força. Conhecemos muito mais dela e de como chegou aqui e é algo muito real, muito desconexo com a ideia que temos da personagem. Mais, não nos vamos esquecer o quanto o seu noivo odeia o trabalho dela e o seu patrão, sem falar do seu salário. Com a pressão do casamento ao virar da esquina, a tensão aumenta de tom e ensurdece quando segredos se revelam: será que esta relação tem futuro? E o seu trabalho com o detective, estará perto do seu término?

Somos ainda apresentados a um novo personagem, alguém que conhece Strike há muito tempo e que se torna fundamental para a resolução do caso. Acredito que haverá mais espaço para ele em futuros volumes ou pelo menos assim desejo. 

O livro termina em suspenso e é difícil constatar que não tens um novo livro à mão de semear para lhe dar continuação. Há muitos leitores a torcer para que os nossos protagonistas se tornem um casal e embora eu perceba esse apelo, eu gosto que eles sejam colegas, mesmo não gostando de Matthew. Gosto da componente humana e emocional deste livro, das reminiscências do passado que explicam o presente, mas também agradeço a cultura com que a autora nos agracia, nas passagens de letras de uma banda que eu não conhecia, num registo escuro e sinuoso.
Finalmente, ao chegarmos aqui, ao terceiro volume a escrever sob o pseudónimo Robert Galbraith, é imperativo reconhecer que não é possível reconhecer nestas linhas a criadora de Harry Potter. Nesta escrita adulta e séria, sem filtro para palavrões, cheia de nuances e real, a única semelhança a apontar é a capacidade extraordinária de J.K. Rowling de nos surpreender e de se exceder. 

- Quando é que há mais?!

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