O dia em que deixei de fugir de mim

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Choveu toda a noite. Ouvi os pingos investirem contra a minha janela, a fustigar o meu estore velho e cansado. Senti a brisa esgueirar-se por entre as frestas e alcançar a minha pele, arrebitando-a, convidando-a para brincar.

Vi o dia amanhecer sem emoção, robotizando o acto de mais um risco do calendário. Com ele veio o sol e nem resquício de nuvens no majestoso manto que nos cobre o cucuruto. Temos planos para esta semana, passei parte da minha madrugada a desvendar pormenores, se a chuva não for teimosa poderá ser divertido.

As férias estão a mais de metade e eu quase nem me mexi. Como a vida é um parque repleto de baloiços, ele tem-se mexido muito mais do que o normal, está sempre a fazer alguma coisa. Olho para ele e fico cansada. Ele estranha, por mais que a minha letargia venha à superfície de tempos a tempos, muitas das acções que ele tem engajado costumam partir de mim. Ele não sabe.

A verdade é que cheguei até aqui, mais longe do que seria de prever em termos emocionais mas não corri atrás dos meus sonhos. Muni-me de situações e tarefas, predispus-me a concretizá-las, fiz o que pude com as armas que tinha e as que inventei. E não obstante a minha expressão séria impeça a visualização, tornei-me eficiente. Facilmente substituível por alguém que faça mais alarido das suas próprias qualidades mas eficiente. De muito me valeu.

Não importa. Pronto, importa um bocado. Mas já não importa no meu dia a dia actual. Vejo-os a matarem-se por um lugar ao sol, cheios de cunhas e gracejos que não interessam a ninguém, a incharem o peito e a terem mais responsabilidades do que deveriam. E depois vejo-os a falarem mal uns dos outros, a gozarem uns com os outros. Vejo como mudam drasticamente apenas com o cheiro ténue do poder. Não me interessa ser um deles.

Perdi um pedaço de mim e fugi do dia em que tinha de o ir buscar, resgatar. Aproveitei-me das ferramentas estarem estragadas e fingi-me de morta. Não quis lidar com a noção de não amar o que faço e de não viver do que amo e de apenas me poder culpar a mim mesma por isso. Não sou aquele tipo de pessoa cheia de projectos mas sim de sonhos que nunca saem da parte de trás do cérebro que se torna papa, depois de um dia a fazer algo que me faz odiar as pessoas um pouco mais.

Mexi nos meus cadernos antigos, nas minhas palavras rabiscadas em todo o lado, tortas e irreconhecíveis. Permiti-me lembrar porque comecei a escrever.

Porque é a única coisa que quero fazer da vida.


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